Pontuação

A quem interesse

Depois da Oficina de Pontuação, poder-se-ia publicar a respectiva acta. Mais modestamente, publico apenas um parecer da Academia Brasileira de Letras (ABL) sobre a pontuação de uma das frases, objecto de alguma controvérsia. A famosa frase 67: «Ao mesmo tempo, a gravação facultou à música uma história, não só das composições e tradições, mas também das execuções, mantendo-as disponíveis durante décadas.» Diz a ABL: «A vírgula depois de “história” se justifica por estar separando termos intercalados (“não só das composições e tradições,”); “história” não é o sujeito da oração; o sujeito é a “gravação”; “história” é o objeto direto de “facultou”.»

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7 comentários:

Xantipa disse...

Esta situação faz-me lembrar a do reconhecimento do sujeito ou do complemento directo. Quantas vezes, só porque não está no primeiro lugar na frase, o sujeiro é identificado como complemento directo e vice-versa.
Como o início de «Os Lusíadas» (não sei fazer itálicos nos comentários) é muito conhecido, uso a primeira frase para explicar que não é sujeito só porque aparece em primeiro lugar, mas é o complemento directo de «cantando espalharei por toda a parte», que aparece umas estrofes depois.

Anónimo disse...

Estive na Oficina de Pontuação e de facto foi um dos pontos que não entendi. A questão não é ter identificado erradamente o sujeito e o predicado e respectivos complementos, mas sim o julgar que não se deve introduzir uma vírgula entre os elementos de uma mesma oração. Procurando no Ciberdúvidas, descobri que afinal não sou a única a considerá-lo. Está lançado o debate!

http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=18251

Helder Guégués disse...

Primeiro, era preciso que a frase fosse igual, e não é. Segundo, como argumento de autoridade, deixa muito a desejar. A equipa da Academia Brasileira de Letras é orientada por Sergio Pachá e Evanildo Bechara, mais que estudiosos, génios da língua. Mas, de qualquer maneira, e é para isso que também serve este blogue, está lançado o debate.

Nuno Dempster disse...

Se a semântica e a prosódia não têm que ver com a pontuação, já o mesmo não se passará com o ritmo da escrita, e é aqui que o virgular e a pontuação em geral podem assumir um papel estético, juntamente com a prosódia. É um facto facilmente constatável em prosa literária do séc. XX até hoje, e era a essa que eu me referia, não vendo mal nenhum que se possa escrever assim uma carta profissional ou mesmo um relatório. A meu ver, neste tipo de prosa, e ainda mais na escrita poética, a pontuação gramatical a preceito é muitas vezes um espartilho, sendo certo que esse espartilho tem de ser precedido do conhecimento cabal das regras de pontuação.

Ora o que estava aqui em jogo nem era isto, era o uso correcto da tal vírgula. Restou-me saber se "não só das composições e tradições" é o predicado do complemento directo. A mim parece-me que é, e se é, a vírgula está erradamente posta. Atenda, por favor, a que o único currículo que trago dessa área é o de ter tido excelentes professores de Português.

E depois, invocando eu de novo a estética, repare como, sem a vírgula, a frase fica muito mais corredia, como fica com mais ritmo, como deixa de ter a engasgadela na leitura da ABL. Como fica mais bonita, em suma.

Só pretendia trocar opiniões sobre assuntos da língua portuguesa, tema que me traz apaixonado desde a adolescência, em que lia a gramática de Epifânio como se fosse um livro do Sandokan. Mas tenho de pensar que pode não lhe apetecer tal coisa, que o seu blogue não é um ciberdúvidas.

Enfim, peço desculpa pelo tamanho do comentário.

Anónimo disse...

«Restou-me saber se "não só das composições e tradições" é o predicado do complemento directo.»

Não é um complemento determinativo de «história»?

Nuno Dempster disse...

Pegando no que Rita Almeida e Sofia escreveram, se tivesse sido eu a escrever as duas frases precedidas da locução mas também, não hesitaria em tê-las pontuado com a vírgula. Mais, não me soava se o não fizesse, e algumas vezes é de nos soar ou não que chegamos à escrita correcta. O ouvido sente ali uma pausa. E depois, só depois, há a gramática para confirmar a nossa razão ou a falta dela, e só nessa altura porque, antes de escrever como escrevemos e ao longo dos anos desse exercício e de leitura, já nos viemos especializando na pontuação, a começar pelos anos de estudo escolar. Sucede também que a Língua é viva não apenas por evoluir, mas também porque é uma matéria-prima de Arte. E que mais vivo pode haver para a Língua do nosso tempo que uma peça de boa, de insofismavelmente boa literatura contemporânea portuguesa?

E já me esquecia do eventual predicativo do complemento directo na frase em questão. É importante, porque a haver, temos uma base gramatical para recusar a vírgula. Caso não me elucidem aqui, darei notícias, depois de consultar um amigo meu, que é um óptimo professor de Português.

Nuno Dempster disse...

Para Sofia: a gralha, que falou indevidamente como todas as gralhas, queria dizer predicativo.

Para Nuno Q. Tem razão, é ter confundido ou não ter percebido o carácter eminentemente técnico do assunto. Releve-me essas faltas à ordem de trabalhos. Não tenho competência para falar de outro modo (a minha formação é numa das engenharias). Ainda por cima a TLEBS veio baralhar-me as ideias. O meu interesse na língua portuguesa é literário, da cidadania que se vai perdendo e também da sua defesa como forma de resistir a essa erosão. As línguas são cada vez mais o último reduto do conceito de pátria. Quanto à engasgadela, para mim existe. Mas isso é puramente subjectivo e possivelmente de hábitos meus.

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